Mosquitos infectados com wolbachia podem ajudar no controle da dengue?

Mosquitos infectados com wolbachia podem ajudar no controle da dengue?

Uma das doenças infecciosas agudas de maior importância no Brasil é o dengue, responsável por grandes epidemias e por um grande número de mortes em algumas cidades brasileiras. Um dos pilares para o controle da doença é a redução na população dos mosquitos vetores e uma estratégia para o alcançar esse objetivo é a infecção em laboratório de mosquitos Aedes aegypti com bactérias da espécie Wolbachia pipientis, que tornam os mosquitos resistentes à infecção pelo vírus do dengue (DENV). Por alterações biológicas nos desfechos de acasalamento, a liberação no ambiente desses mosquitos infectados pela bactéria levaria, com o tempo, ao predomínio da população resistente ao DENV em relação à população selvagem de mosquitos.

A infecção de mosquitos infectados com Wolbachia pipientis vem sendo testada em algumas regiões do mundo, incluindo algumas cidades brasileiras. Os resultados da experiência na cidade de Yogyakarta, na Indonésia, foram publicados na The New England Journal of Medicine, lançando luz sobre o impacto dessa estratégia no controle da doença.

Materiais e métodos
O estudo foi realizado em uma área de 26 km² com uma população de 311.700 pessoas, a qual foi subdividida em 24 regiões ou clusters, preferencialmente com fronteiras geográficas que pudessem evitar a dispersão dos mosquitos entre clusters diferentes. De forma randomizada, mosquitos infectados com Wolbachia pipientis foram liberados em 12 clusters, enquanto os 12 restantes não sofreram nenhum tipo de intervenção.

Os participantes da parte clínica do estudo foram recrutados a partir da rede de atenção básica, composta por 18 clínicas em Yogyakarta e no distrito adjacente de Bantul. Os participantes elegíveis tinham de 3 a 45 anos, tinham febre aferida ou relatada iniciada 1 a 4 dias antes da entrada no estudo e residiam na área do estudo todos os dias nas 10 noites anteriores ao início do quadro febril. Os voluntários foram excluídos se apresentavam sinais localizatórios que sugerissem outro foco infeccioso que não uma arbovirose e se tivessem sido incluídos no estudo nas 4 semanas anteriores.

Os indivíduos incluídos forneceram informações geográficas e história de viagens dos 3 a 10 dias antes do início da doença febril. Amostras de sangue para diagnóstico de arboviroses foram coletadas e os participantes foram contatados nos dias 14 e 21 do estudo para avaliar mortalidade e necessidade de internação no período. Não foram coletadas informações em relação à gravidade do quadro clínico e diagnósticos alternativos.

Dengue virologicamente confirmada foi definido como um resultado de RT-PCR positivo pela plataforma multiplex ou ELISA positivo para o antígeno NS1 no exame de entrada do estudo. Indivíduos com resultados de RT-PCR, NS1 e IgM e IgG negativos foram classificados como controles teste-negativos. O sorotipo do vírus DENV foi determinado por meio de exame de RT-PCR específico nas amostras positivas.

O desfecho primário foi dengue virologicamente confirmada sintomática independente da gravidade e do sorotipo do DEVN. Desfechos secundários incluíram doença sintomática por cada um dos 4 sorotipos virais e doença sintomática pelos vírus da Zika e Chikungunya. A análise de segurança avaliou hospitalização ou morte nos 21 dias após a entrada no estudo.

Resultados
O estudo foi interrompido precocemente devido à pandemia de Covid-19, com inclusão de menos pacientes do que o planejado pelo protocolo inicialmente. No total, foram incluídos 6.306 indivíduos: 2.905 nos clusters que sofreram a intervenção e 3.401 nos clusters controles. Quatro participantes tiveram diagnóstico de Chikungunya e foram excluídos da análise. Não foram detectados casos de Zika.

Dos 6.306 participantes, 4,7% foram hospitalizados no período de observação do estudo, com uma incidência de hospitalização menor entre os que residiam nos clusters que receberam a intervenção (81/2905; 2,8%) do que nos clusters controle (214/3401; 6,3%), com uma OR = 0,43 (IC 95% = 0,32 – 0,58). Esses resultados foram consistentes em todas as clínicas que participaram do estudo. Não houve mortes relatadas durante o período do estudo.

Dentro do total de participantes, 385 (6,1%) tiveram dengue virologicamente confirmado e 5.921 (93,9%) foram considerados como controles teste-negativos. A distribuição de idade e sexo foi semelhante nessas duas populações.

A incidência de dengue virologicamente confirmado foi menor entre os residentes dos clusters com mosquitos com Wolbachia pipientis (67/2905; 2,3%) do que entre os residentes dos clusters controle (318/3401; 9,4%), com um OR = 0,23 (IC 95% = 0,15 – 0,35; p = 0,004), o que representa uma eficácia protetora de 77,1% (IC 95% = 65,3 – 84,9%). O efeito protetor foi semelhante entre os 4 sorotipos de DENV, mas maior para DENV-2 e menor para DENV-1. O número de hospitalizações também foi menor entre os residentes dos clusters de intervenção (0,4% vs. 3,0%), com uma eficácia protetora de 86,2% (IC 95% = 66,2 – 94,3%).

Mensagens práticas
Nesse estudo, a liberação de mosquitos A. aegypti infectados com a bactéria Wolbachia pipientis esteve associada à menor incidência de dengue confirmado e no número de hospitalizações.

Autor(a): Isabel Cristina Melo Mendes

Fonte: https://pebmed.com.br/

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